PATRONO

Orty de  Magalhães Machado

Por: Fernando Tokarski *

 

     A história dos outros é importante, mas a nossa história é ainda maior; se a nossa história não tem valor, a dos outros também possui pouca importância.

     Acredito que foi sob esta ótica que o advogado, político, funcionário público e pesquisador Orty de Magalhães Machado construiu a sua própria história, traçando as bases da historiografia de Canoinhas. Em companhia do também brilhante Cyro Ehlke, autor da legendária obra “A conquista do Planalto Catarinense: Bandeirantes e tropeiros no sertão de Curitiba”, Orty Machado pesquisou as origens do povoado de Canoinhas e dos bairros rurais dos seus arredores. Foi assim que ele ressaltou a importância histórica de Canoinhas em torno da economia ervateira e do extrativismo da madeira; foi assim que ele enalteceu a participação de Canoinhas na Guerra do Contestado, enaltecendo as figuras heroicas que o município teve nos dois lados do epopeico confronto. Foi assim que Orty Machado anotou as primeiras páginas da História canoinhense, lançando as melhores luzes e honrarias ao primeiro prefeito, o major Manoel Thomaz Vieira.

Nascido em São Bento do Sul aos 08 de março de 1917, filho do farmacêutico Alvaro Soares Machado e de Maria Magalhães. Poucos meses depois, no mesmo ano, seu pai decidiu se estabelecer em Canoinhas. Advogado militante, foi deputado constituinte em 1945 concorrendo pelo Partido Democrático Social (PSD) e aos 19 de janeiro de 1947 conseguiu reeleição ao obter 2.398 votos. Foi por intermédio do político Orty Machado que em junho de 1955 o então candidato a presidência da República, Juscelino Kubitschek veio a Canoinhas, produzindo memorável discurso na sacada do prédio que abriga uma agência bancária e a Casa da Cultura.           

      Foi pelas mãos de Orty Machado que a cidade do Rio de Janeiro ganhou uma praça com o nome Canoinhas. Foi por iniciativa dele que Canoinhas tem um singelo monumento denominado “Marco Zero”, no bairro Campo do Água Verde, na intercessão das ruas Guilherme Prust e Paulo Wiese com a avenida dos Expedicionários. Porém, seu projeto não foi consumado conforme as suas pretensões; o monumento não mereceu das autoridades públicas a pompa que Orty Machado pretendia oferecer para simbolicamente marcar o lugar da primeira morada de Francisco de Paula Pereira, o fundador oficial da cidade de Canoinhas.

 

      Orty Machado também contribuiu para a paisagem urbana de Canoinhas, quando na praça Lauro Müller plantou uma sequoia, hoje uma das atrações daquele logradouro.

Foi por insistência de Orty Machado que em Canoinhas se corrigiu um erro histórico que alguns ainda insistem em reproduzir. Foi graças a ele que a rua Paula Pereira, parecendo homenagem a uma mulher, foi alterada para Francisco de Paula Pereira, eternizando o nome do pioneiro. Trata-se da lei 2.349, de 20 de dezembro de 1990, de autoria do vereador Orlando Krautler, sancionada pelo prefeito Antonio Souza Costa.        

Boêmio por vocação, Orty Machado gostava de passar as noites entre copos de uísque e agradáveis conversas em torno da História local. Nos últimos tempos, o restaurante “Pink House”, na rua Major Vieira, era o seu lugar predileto e nele tinha uma mesa cativa. Nesses discursos, como nenhum outro exaltava as qualidades de Canoinhas e de sua gente. Falava com verdadeiro orgulho das belezas e das riquezas deste pedaço de chão, sentindo imenso prazer em glorificar sobretudo o homem como o agente das transformações da sociedade.

            Quando contava com apenas 19 anos, ainda estudante, no jornal “O Triunfador”, na edição de 06 de dezembro de 1936, quando Canoinhas comemorava seus 25 anos de emancipação político-administrativa, Orty Machado escreveu o artigo “À margem da história: à memória do saudoso prefeito major Vieira”, na mesma edição traduzido para o vernáculo alemão. No texto já está patente a copiosa verve literária e a perspicácia do pesquisador então em tenra idade. Nos primeiros momentos de sua escrita Orty Machado diz que “Enquanto outras cidades eram rasgadas por avenidas cobertas de paralelepípedos e asfalto, Canoinhas balouçava ao soprar constante da brisa as ramagens verdejantes das frondosas copadas das imbuias, dos pinheiros e dos ervais que, naquela época, recobria todo o seu perímetro urbano de hoje; Canoinhas repousava ainda no seu estado primitivo, como nos primeiros dias do gênesis; virgem como Cabral desejou encontrar as terras brasílicas. O único habitante era o silvícola, lutando contra a natureza exuberante, ouvindo o bramir feroz dos felinos errantes e o ramalhar das arvores centenárias, confundindo-se com o cantar-gemendo dos nossos lajeados monótonos e cristalinos. Nasceu ontem! Sim; porque não ouviu o 7 de Setembro ecoar no seu casario de pedra, trazendo a independência a uma pátria oprimida. Nem o vozerio confuso dos negros na senzala da escravidão, nem o arrastar dos pesados elos das cadeias assassinas das fazendas, nem o 88 trazendo a liberdade de um cativeiro infeliz; nem o 15 de Novembro derrubando uma monarquia, nem o florescer de uma republica. Não fremiu de entusiasmo vendo Deodoro subir á presidência, e nem o pavilhão verdamarelo foi hasteado em sua câmera. Nem tão pouco assistiu ao acender dos lampiões de gás, nem o bico de corbuto tremeluzindo nos paços e nas ruelas. Tudo isso ocorreu enquanto ela permanecia indiferente na sua consciência de natureza bruta. Veio o século XX, o século da síntese e da vertigem. É o desabrochar, rompe os liames que a prendiam ao embrião. É o nascer; de simples terra inexplorada, vai-se, pouco a pouco, povoando do nosso sertanejo. O braço do homem civilizado, empunhando o machado e a foice do progresso, rasga os mistérios do nosso sertão, Vem 1911. De simples distrito policial, distanciado 30 léguas da sede do município, torna-se uma comuna. [...] Nem uma escola e ‘uns’ alfabetizados apenas. Essa era a formidável herança que nos legava Curitibanos... Vem a estrada da penetração, o caminho de ferro, com as suas paralelas de aço, trazendo o comboio fumegante – o ‘boitatá’ do nosso pacato e bom caboclo. Mal começava o progresso, veio interrompê-lo a campanha fratricida do Contestado e a Revolução dos Jagunços, que ensanguentaram as nossas coxilhas verdes – era o fanatismo religioso, acrescido da ignorância explorada com bizantismos exóticos. [...] Vinte e cinco anos na vida de um municipio é ontem na vida de um povo.”

            Na minha análise, estes fragmentos do texto de Orty Machado são fotografias da sua construção para a História. Entretanto, a carência de métodos historiográficos fez com que o pesquisador não seguisse os passos de seu amigo Cyro Ehlke. Ele publicou muitos artigos, especialmente sobre a Guerra do Contestado, quase sempre referenciando outros autores. Mas as suas pesquisas infelizmente permaneceram no silêncio e no vazio. Em meados de 1992, num lançamento literário de uma obra da poetisa caçadorense Ivana Coldebella na Universidade do Contestado, animadamente conversei com Orty Machado.

Foi quando ele me disse, naquele seu jeitão: “Tokarski, preciso comprar um computador. A História de Canoinhas está toda aqui, na minha cabeça. Preciso sistematizar isso.” Foi o nosso último encontro. Orty Machado não teve tempo para comprar o seu computador. Semanas depois, na manhã de 16 de dezembro, alguém me telefonou dizendo que Orty Machado havia morrido. Estava com 75 anos. Logo pensei: com ele foi embora boa parte da História do município e da região que ele tanto reverenciou. Irônico e brincalhão, Orty Machado deixou lavrar em seu túmulo o mais curioso epitáfio do cemitério público municipal, onde literalmente estava escrito “Aqui jaz Orty Magalhães Machado, que morreu contra a vontade.” Entretanto, por razões que desconheço, esse epitáfio foi substituído. Anos depois de sua morte, sob minha inspiração e de Gecy Varella Dittrich, aos 28 de outubro de 1998, nesta cidade foi inaugurado o “Museu Histórico Orty Magalhães Machado”, numa justa homenagem àquele que efetivamente principiou o resgate e a preservação da nossa História. 

Canoinhas, 29 de maio de 2015

 

*Fernando Tokarski, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e membro-fundador da Academia de Letras do Vale do Iguaçu, de União da Vitória (PR). 

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